Conversando com um amigo sobre presente, passado e futuro, ele me disse
uma coisa que me deixou intrigada. Para ele, uma pessoa que fica relembrando o
que viveu age como um robô artificial, sem naturalidade espontaneidade.
Discordei, em partes, da opinião do meu amigo. Realmente, a lembrança eterna do
que se viveu pode engessar seus atos. Mas, assim como um povo que não conhece a
sua história tende a repeti-la, acredito que a pessoa que esquece sua história,
o que viveu, as pessoas que passaram pela sua vida, tende a repetir os mesmos
erros, a mesma história.
Tudo o que vivemos compõe a nossa bagagem de vida. Não podemos abandonar
esta bagagem. Ela é que nos identifica diante do mundo, já que nenhuma pessoa
tem a mesma bagagem de outra, mesmo sendo irmãs gêmeas. E como tia de gêmeas
posso garantir que a bagagem de uma é totalmente diferente da outra. São nossas
experiências com as pessoas, principalmente, que formam nossa identidade, o que
somos no mundo.
Como posso me esquecer que: vivi uma infância pé no chão, com grandes
amigas de infância; que meu primos mais sacanas me chamavam de Dumbo por causa
do tamanho das minhas “pequenas” orelhas; que estudei quase minha vida toda em
escola pública e vi alunos irem à escola para merendar; que por ser a mais nova
fui sempre protegida pelos meus pais e irmãos; que tive medo de perder minha
irmã e meu pai ao mesmo tempo; que presenciei alguns milagres na minha família;
que vi primos e amigos perderem seus pais; que vivi um Carnaval inesquecível
com meus amigos em 2006, que vai ser difícil de superar?
Estas e outras experiências me fizeram ser o que sou hoje. Com elas:
aprendi a valorizar minha família; aumentei minha fé em Deus e Nossa Senhora;
descobri que amigos são a família que escolhemos, mesmo; vivenciei o aumento da
minha auto estima e fiquei muito mais bonita por isso; fiquei muito mais segura
e independente; sou uma pessoa ainda mais humilde, capaz de estar em palácios e
casebres; sei o valor da educação, do amor, da amizade e de um prato de comida.
Já caí na armadilha de ser, como meu amigo disse, um “robô automático”, que ficava remoendo o passado e não vivendo o presente. Mas aprendi a lidar com meu passado, entendendo que ele construiu minha bagagem existencial. Hoje ao invés de me engessar, vejo o que vivi e construí neste pequeno caminho percorrido e toma minhas decisões com mais convicção de estar fazendo a coisa certa. Não tenho mais medo de sofrer, tenho medo de não viver.
E você? Qual sua bagagem?
