segunda-feira, 9 de junho de 2014

A Copa que quero para os meus sobrinhos

Eu tenho muitas recordações felizes da minha infância, pude aproveitar como poucos esta fase da vida. Mas uma das que mais me marca foi minha primeira Copa. Eu, com nove anos, a mesma idade de uma das minhas sobrinhas hoje, pude ver a Seleção brasileira ser tetraaaaaaa, é tetraaaaaaaaa. Tudo aquilo me fascinou Bebeto fazendo o gesto clássico embalando seu filho, a dobradinha inesquecível com Romário, a cara feia do Dunga, sempre mostrando liderança. Ali naquele turbilhão de acontecimentos nascia meu gosto por futebol, afinal comecei bem, com o pé direito, diferente do que aconteceu depois, mas aí é já é outra história.

Não me esqueço da aflição dos pênaltis, Taffarel indo com tudo porque era dele, e por fim, o pênalti perdido por Baggio. Eu acompanhava tudo da Copa da minha casa (sim teve copa) de joelhos e quando vi que éramos tetraaaaa saí correndo pra minha rua pra comemorar. Minhas tias de Minas estavam na minha casa e ficaram horrorizadas que fui pro meio de um bloco de samba que tinha no meu bairro, desde sempre bicho solto. Para minha mãe aquilo era tão normal quanto se eu estivesse brincando de boneca. Acho que foi naquele exato momento foi plantado em mim o gosto por futebol.

Naquela época, também não vivíamos tempos fáceis. Era o início do Plano Real, depois de inúmeros planos econômicos que fizeram o povo sofrer; teríamos eleições presidenciais depois de um impeachment; o desemprego era elevadíssimo. Assim como agora vivíamos problemas, muito que permanecem até hoje. Entretanto, isso não nos impediu de comemorar um campeonato de futebol após 24 anos.

A Copa no Brasil expôs inúmeros destes problemas sociais, econômicos do país. A revolta com os gastos públicos, as promessas não cumpridas, a Lei Geral da Copa, os roubos cometidos com nosso dinheiro, a mudança que não veio, fez com que a Copa no nosso país, tão sonhada por tantos, perdesse o encanto. Quem apoia ou torce ou compra um álbum de figurinhas é considerado alienado, a favor do sistema. Instaurou-se uma lei de que é fora de moda torcer na Copa.

Sinto muito mas não penso assim. Não preciso que ninguém do alto do seu pedestal venha dizer que sou alienada por torcer num jogo de futebol. Basta eu sair no meu bairro que tenho real noção das desigualdades desse país. Minha irmã é professora de escola pública e estudei quase minha vida inteira em uma, sei exatamente as condições da educação no país. E não acredito que o fato de não torcer pelo Brasil ser campeão vá mudar este quadro.

Apoio, sim, que manifestações sejam feitas, de forma pacífica, se for possível. Temos a mentalidade de um país inteiro para mudar. Apoio ainda mais a mudança no pensamento político que irá se refletir nas urnas este ano. Este sim um comportamento que trará benefícios para o país.


Então está decidido: aqui em casa vai ter Copa sim. Porque quero que meus sobrinhos tenham boas lembranças, sejam felizes. Não estamos criando cidadãos alienados, estamos criando cidadãos felizes. Com direito a camisa, álbum da Copa, a aprender a cantar o hino, só não tem mais o bloco no meu bairro. Mas quero que eles tenham boas lembranças, como eu tenho. Quanto à consciência social deles, ah isso eles tem indo à escola, andando na rua do bairro onde moram e, claro, através, dos ensinamentos que nós adultos, que tivemos nossos momentos de felicidade na infância, vamos transmitir a eles. 

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